Educação a Distância: oportunidades teórico-práticas para uma educação do futuro.
Henrique Rauch
Resumo: A proposta da EaD surge com intuito de inserir mais uma parcela da sociedade no ambiente formativo, principalmente quando demonstra a eficácia de seu modelo não presencial. O objetivo deste texto é refletir sobre alguns aspectos da EaD como alicerces da construção de uma nova possibilidade de crescimento intelectual, com vistas a interferência consciente e madura do ser humano na sociedade, participando efetivamente da reconstrução social com uma marca ética e feliz, tanto sob o prisma individual quanto coletivo. A avaliação da EaD, a autonomia do estudante, concepções de aprendizagem e autoavaliação são tópicos a serem abordados como importantes para uma educação do futuro. Cada um deles representa um fator decisivo para uma nova realidade educativa e intelectual do aluno que é autônomo e se torna mais amadurecido com a nova abordagem à distância, deixando sua marca na aplicabilidade dos conhecimentos teóricos na prática cotidiana.
Palavras-chave: EaD; Modelo; Sociedade.
Da avaliação da EaD
O processo de avaliação sempre foi foco de discussão no meio educacional. O desafio de representar o crescimento do aluno através de sua caminhada no aprendizado ainda nos dias atuais é um dilema para professores e educadores. Busca-se, todavia, uma padronização nas formas de avaliar o aluno, talvez para facilitar ou universalizar tamanha dificuldade enfrentada.
Entretanto, segundo CASTILHO (2011 p. 106) “a avaliação padronizada nem sempre é capaz de uma mensuração real da aprendizagem.” Esta afirmação reforça a incógnita tida como problemática permanente estudada por autores e até mesmo sendo tema de congressos, seminários e encontros profissionais.
O Ensino a Distância (EaD) atualmente toma forma mais acentuada nas opções por formação da sociedade brasileira. Principalmente pelo modelo flexível e tecnológico, a EaD facilita o acesso de alunos que são trabalhadores e pais de família, até mesmo possuindo mais de um trabalho e sem condições temporais para assumir um ensino presencial. Nesta realidade atual, o processo avaliativo em EaD deve priorizar, ainda segundo CASTILHO (2011 p. 107):
No ensino a distância, em que o estudante tem preferência por um modo de aprendizado individualizado, mas cooperativo, o processo de avaliação deve verificar o desempenho em projetos colaborativos, medindo, primordialmente, a interatividade entre grupos de alunos. Avaliações, em sistemas dessa natureza, constituem um grande desafio para professores e desenvolvedores, porque precisam ser inovadoras, dinâmicas e, mais do que tudo, motivadoras.
A avaliação é, neste prisma, o resultado do processo educativo centrado na individualidade e especificidade do aluno, buscando a verificação das relações entre alunos e o que estes grupos podem representar como massa grupal e individual de conhecimentos adquiridos.
Um modelo novo de educação sobressalta aos olhos da sociedade educacional e dá alternativas de trabalho para outros métodos de ensino-aprendizagem, cujo foco passa a ser o aluno e seus interesses pessoais e não mais os conteúdos ministrados pelo professor.
Talvez tenha surgido, com isso, um novo modelo a ser pensado pelos educadores presenciais, tendo por base novos conceitos surgidos a partir da revolução tecnológica e da comunicação, eis que vêm à tona termos recentes como nativos virtuais ou avatares para definir um novo parâmetro de inserção dos humanos em grupos sociais de aprendizado.
Da autonomia do estudante
O modelo da EaD flexibiliza, não só as formas de abordagem avaliativas, mas também o modo como os alunos aprendem e se dedicam aos seus estudos, com vistas ao crescimento e amadurecimento teórico. Segundo BEHAR,
[...] pode-se dizer que um novo espaço pedagógico está em fase de gestação, cujas características são: o desenvolvimento das competências e das habilidades, o respeito ao ritmo individual, a formação de comunidades de aprendizagem e as redes de convivência, entre outras. É preciso enfocar a capacitação, a aprendizagem, a educação aberta e a distância e a gestão do conhecimento. Assim, estudos sobre construção do conhecimento, autonomia, autoria e interação contribuem para a construção de um espaço heterárquico, sendo que esse é pautado pela cooperação, pelo respeito mútuo, pela solidariedade, por atividades centradas no aprendiz e na identificação e na solução de problemas. Nesse processo, configuram-se os alicerces deste novo modelo que está emergindo. BEHAR, P. A. Modelos Pedagógicos em educação a distância. p. 16. Disponível em: <http://downloads.artmed.com.br/public/B/BEHAR_Patricia_Alejandra/Modelos_Pedagogicos_Educacao_Distancia/Liberado/cap_01.pdf>
Neste contexto a reconstrução do ambiente de aprendizagem se dá através de situações tecnológicas mais avançadas cujo foco está nos interesses do estudante, seu modo de ser e agir e suas relações com os grupos aprendizes. A troca de informações tidas nas interações coletivas, mesmo à distância, promove o crescimento pessoal e aguçam a curiosidade científica, consolidando o aprendizado a partir das atividades realizadas nos modelos pedagógicos disponíveis no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) característico de cada curso.
Talvez, este modelo em gestação facilite o desenvolvimento de uma sociedade mais madura em relação ao posicionamento crítico e consciente de seu papel cidadão, fomentando efetivamente a tomada de decisão positiva em relação à problemática da vida individual e coletiva, com maior responsabilidade e ética.
Neste contexto, as várias concepções de aprendizagem disponíveis no meio educacional também colaboram para este macro desafio assumido pela educação.
Das concepções de aprendizagem
A autonomia do aluno em relação a sua aprendizagem passou por alguns momentos, o que convém refletir sobre suas características principais. O Behaviorismo talvez tenha reforçado o caráter de autodidatismo primeiramente apresentado como alternativa para os cursos à distância.
O autor escreve que:
[...] o behaviorismo, especialmente o behaviorismo radical de Skinner, foi a base teórica inicial para métodos da chamada autoinstrução programada nos anos 60. Serviu de base também para os primeiros sistemas de ensino a distância tradicional. Foi preterido quando entrou em voga o construtivismo, mas os princípios de controle de comportamento formulados pelos behavioristas são válidos ainda para algumas categorias de aprendizagem. CASTILHO, R. Ensino a distância EAD – interatividade e Método. São Paulo: Atlas, 2011. p. 12
Principalmente nos anos 60, o Behaviorismo foi uma possibilidade de trabalho quando da ascensão dos primeiros movimentos em relação a EaD, tendo em seguida o surgimento da teoria construtivista de Piaget, substituindo o modelo behaviorista, não em sua totalidade, já que ainda hoje este demonstra-se válido para algumas categorias de ensino/aprendizagem como afirma o autor.
O construtivismo posiciona-se contrário ao que vem pronto. Centra-se na construção do aprendizado através da experiência, negando o passado e tendo como foco o presente e futuro experienciado.
Sustenta o autor:
[...] Como princípio, o construtivismo de Piaget nega idéias prontas. Tem a qualidade de respeitar a individualidade e o interesse do aprendiz, mas tem sido criticado como modelo que nega o conhecimento já adquirido, como aquele que consta de cartilhas e apostilas. Esse conhecimento também faz parte do universo de possibilidades de aprendizado, apenas não deve ser o único, como queria a escola tradicional. CASTILHO, R. Ensino a distância EAD – interatividade e Método. São Paulo: Atlas, 2011 p. 13
Contrariamente à escola tradicional, o construtivismo busca complementar o conhecimento oferecido pelo meio educacional presencial, obtido através de livros, cartilhas, apostilas, etc., objetivando a aplicabilidade dos conceitos teóricos pelo aluno.
Além do construtivismo, um modelo de EaD formulado pelo Instituto Paulo Freire surge para auxiliar no desafio de educar à distância e formar pessoas integrais no quesito cidadania. Através das relações construídas, da problematização de situações cotidianas, e entendimento da realidade do aluno, se podem desenvolver atividades agregadoras no desenvolvimento intelectual humano.
[...] A educação a Distância (EaD) praticada pelo Instituto Paulo Freire é considerada como o encontro não presencial entre sujeitos que dialogam e controem relações, conhecimentos, práticas e situações existenciais, problematizando-as no intuito de realizarem intervenções na realidade em que se estão inseridos. Suas atividades envolvem o uso de ferramentas e plataformas livres, em especial a plataforma de Unifreire, por meio da qual são desenvolvidas a maioria dos encontros de formação, que podem ser presenciais ou totalmente a distância. CASTILHO, R. Ensino a distância EAD – interatividade e Método. São Paulo: Atlas, 2011 p. 15
As idéias de Freire são utilizadas como alicerce em um modelo que pode diversificar a aprendizagem, focando principalmente na EaD, sugerindo outro modelo de apoio à construção do ensino e com objetivo de fazer do aluno participante efetivo do seu próprio crescimento. Paulo Freire acaba sendo visto aplicado também à inovadora EaD, considerada por muitos como educação do futuro.
Da autoavaliação
Além de ser participante no processo de crescimento intelectual, além do aluno estar preocupado com sua autoavaliação em busca da mensuração de sua efetiva participação na evolução educativa, as instituições promotoras da EaD devem estar voltadas para a construção de uma sociedade alicerçada em uma formação educacional consciente de seu papel, tendo criticidade, ética e participação.
Em seu livro, Edgar Morin (1999) traça a linha das fundamentalidades exigidas dos gestores da educação para preparar as novas gerações. Para ele, são necessários sete saberes para que o estudante tenha respeitados os seus direitos e necessidades educacionais.
São eles: erro e ilusão – um desenvolvimento humano capaz de fornecer ao estudante o senso próprio de eliminação dos erros e ilusões próprios da vida cotidiana; princípios de um conhecimento pertinente – capacidade dada ao aprendiz de lidar com as questões globais, regionais e locais de forma independente e madura; ensinar a condição humana – perpassando todas as áreas do conhecimento, propiciando uma ampla reflexão sobre o ser humano e sua especificidade tão rica e complexa; ensinar a identidade terrena – a inserção do ser humano numa realidade planetária de grandes dificuldades e que assola todo o indivíduo.
Estar ciente e ser capaz de emitir o posicionamento crítico acerca da realidade do planeta é importante para uma educação do futuro, segundo Morin;
[...] enfrentar as incertezas – saber lidar com o imprevisto de forma madura e consciente, sabendo entender os revezes da vida humana e as condições mais favoráveis de enfrentamento; ensinar a compreensão – ligada à contemporaneidade quando se trata do aceite das grandes manifestações da diferença como o homossexualismo, o racismo, etc.; a ética do ser humano – abordada através de uma antro-ética onde o controle mútuo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade (ou seja, a democracia). MORIN, E. Les sept savoirs nécessaires à l’education Du futur. Disponível em: <http://wwwv1.agora21.org/unesco/7savoirs/>
Em suma, saber lidar com os erros e ilusões da vida, entender o mundo em que rodeia, a condição humana, as incertezas, a compreensão e a ética são elementos importantes para uma autoavaliação tanto dos alunos quanto das instituições de ensino. Estas diretrizes encaminham o meio educacional para uma realidade onde a formação não está somente vinculada ao repasse de teorias e conceitos, mas sim a aplicabilidade na prática cotidiana, fazendo do conhecimento uma oportunidade de intervenção social efetiva, onde o ser humano pode realizar-se com vistas a sua felicidade individual e coletiva, promovendo ao mesmo tempo uma sociedade mais justa, fraterna e humana.
Considerações Finais
A EaD e seu modelo inovador, aliado a algumas concepções de aprendizagem antigas pode demonstrar quão eficaz é em relação ao que a sociedade atual espera como educação do futuro. Uma regulação focada nas diretrizes governamentais do Ministério da Educação e Cultura (MEC) já definidos, uma avaliação interna e externa da EaD permanentes, a autonomia do estudante e a autoavaliação individual e educacional levam a proposta à efetivação de uma nova realidade voltada a formação de cidadãos mais atuantes no meio social, mais intelectualizados e preocupados com uma sociedade mais ética e feliz. Não basta transferir conhecimentos, mas é preciso evidenciar a oportunidade de aplicabilidade dos conceitos e teorias acadêmicas na solução de problemas cotidianos, tanto na vida pessoal quanto profissional, nas rodas de amizade e nos desafios sociais. A vida humana precisa de uma educação atuante na prática, criadora de pontes entre a teoria e a aplicabilidade prática.
Referências
BEHAR, P. A. Modelos Pedagógicos em educação a distância. Disponível em: http://downloads.artmed.com.br/public/B/BEHAR_Patricia_Alejandra/Modelos_Pedagogicos_Educacao_Distancia/Liberado/cap_01.pdf
CASTILHO, R. Ensino a distância EAD – interatividade e Método. São Paulo: Atlas, 2011.
MORIN, E. Les sept savoirs nécessaires à l’education Du futur. Disponível em: <http://wwwv1.agora21.org/unesco/7savoirs/>
VERAS, M. org. Inovação e métodos de ensino para nativos digitais. São Paulo: Altas, 2011.